Planos de saúde adotam novo modelo de gestão que deve reduzir rede credenciada – 08/05/2019

Em crise, setor já perdeu 3,1 milhões de usuários. Na semana passada, Amill descredenciou 10 hospitais da Rede D’Or

RIO – Com a perda de 3,1 milhões de beneficiários desde o fim de 2014 e a alta de custos, as operadoras de saúde estão revendo seu modelo de gestão. A mudança passa pela assistência ao beneficiário, que se volta para a medicina preventiva, e pela forma de pagamento de fornecedores, que está deixando de ser feito por serviços.

Na semana passada, a Amil, maior operadora do país, anunciou o descredenciamento de unidades da Rede D’Or São Luiz, entre Rio e São Paulo, por divergências no modelo de remuneração.
O movimento, que surpreendeu consumidores, vem a reboque de aumento significativo de investimento dos grupos do setor em redes próprias de hospitais, laboratórios e ambulatórios.

Na prática, dizem especialistas, isso pode levar a uma menor oferta de rede credenciada e a uma maior concentração de planos de saúde.

  • Esse é um fenômeno visto no mundo inteiro. A tendência é a oferta de uma rede menor, mas mais articulada entre si, dentro da ótica de cuidado de saúde. E também de concentração da saúde suplementar.

No Brasil, isso pode ser um pouco diferente no que diz respeito aos planos pela regionalização – diz uma fonte do setor que preferiu não se identificar.

Número de operadoras cai

A concentração já começou. O número de operadoras do setor caiu de 1.135, em 2008, para 745, em fevereiro deste ano, num movimento visto como natural nesse mercado.

A mudança no modelo de pagamento caminhava até agora, porém, a passos lentos. Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), em 2018, apenas 4% dos pagamentos feitos por operadoras foram em modelos diferentes da remuneração por serviços.

  • Há um trabalho de muita conversa entre operadora e prestadores de serviço. Tentamos um movimento coletivo, mas fomos convencidos de que as negociações bilaterais são mais produtivas. É um trabalho de desenvolvimento de confiança e transparência. O pagamento por procedimento não estimula eficiência – diz José Cechin, diretor-executivo da FenaSaúde, que reúne as maiores empresas do setor.

Hospitais criam planos próprios

Em 2010, lembra a Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge), o Relatório Mundial sobre o Financiamento dos Sistemas de Saúde da OMS já apontava que usar modelos de pagamento alternativos ao de remuneração por serviços seria eficaz na redução de desperdícios e custos desnecessários.

Segundo fontes, a negociação entre Amil e Rede D’Or emperrou porque a operadora propõe remuneração por orçamento anual, com base no gasto do ano anterior, com um redutor. Já o grupo de hospitais defende remuneração por pacote de serviços.

  • A Amil é o terceiro maior cliente da Rede D’Or. O descredenciamento de todos esses hospitais terá impacto. Trata-se de uma estratégia de verticalização da Amil – conta uma fonte.

Verticalização é como o setor explica a concentração do atendimento na rede própria de um grupo. A Amil conta hoje com uma rede hospitalar. E a Rede D’Or passou a vender, em parceria com uma seguradora, um plano criado a partir da gestão de sua carteira de funcionários. Procurada, a Amil não comentou. A Rede D’Or diz que as negociações com a operadora continuam.

Quando uma operadora inaugura um novo hospital, tem sido comum no setor o descredenciamento de unidades próximas, segundo fontes.

Efeitos de longo prazo

No curto prazo, diz Ana Carolina Navarrete, pesquisadora em saúde do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), a ampliação do número de hospitais próprios das operadoras pode ter um efeito de redução de preços dos planos, com o aumento do poder de negociação com as demais unidades da rede credenciada.

A questão é o resultado de longo prazo. Com a concentração, no futuro, os preços podem subir. A maior preocupação, diz, é com a qualidade da assistência:

  • Será necessário termos indicadores claros de qualidade e transparência para que se tenha certeza de que estão sendo adotadas as melhores práticas e não aquelas que oferecem o melhor custo.

Para Fernando Boigues, vice-presidente da Feherj, que reúne os hospitais do Estado do Rio, é preciso incluir os médicos na discussão:

  • Aumentar a remuneração dos médicos pode ampliar a qualidade do atendimento e reduzir gastos com exames e internações. Em paralelo, o impasse entre Amil e Rede D’Or deixou os hospitais receosos.

Temem o que pode ser feito com os pequenos. A Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) diz que já há diversos sistemas de pagamento de fornecedores implementados no setor.

Fonte: O Globo

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